Henri Bergson – Ensaio sobre a comicidade

Henri-Bergson---Ensaio-sobre-a-comicidade
Uma pessoa que tenha rido com gosto ao menos uma vez na vida não pode ser irremediavelmente toda ruim. Thomas Carlyle

Um homem, correndo pela rua, tropeça e cai: os transeuntes riem. Não ririam dele, acredito, se fosse possível supor que de repente lhe deu na veneta de sentar-se no chão. Riem porque ele se sentou no chão involuntariamente. Portanto, não é sua mudança brusca de atitude que provoca o riso, é o que há de involuntário na mudança, é o mau jeito. Talvez houvesse uma pedra no caminho. Teria sido preciso mudar o passo ou contornar o obstáculo. Mas, por falta de flexibilidade, por distração ou obstinação do corpo, por um efeito de rigidez ou de velocidade adquirida, os músculos continuaram realizando o mesmo movimento quando as circunstâncias exigiam outra coisa. Por isso o homem caiu, e disso riem os transeuntes.

Temos agora uma pessoa que cuida de seus pequenos afazeres com uma regularidade matemática. Acontece que os objetos que a cercam foram trocados por algum zombeteiro. Vai molhar a pena no tinteiro e lá encontra lama, pensa que está sentando numa cadeira firme e acaba deitada no assoalho; enfim, age na contramarcha ou funciona no vazio, sempre por um efeito de velocidade adquirida. O hábito imprimira um impulso. Teria sido preciso deter o movimento ou desviá-lo. Mas qual nada: continuou-se maquinalmente em linha reta. A vítima de uma farsa de gabinete está, portanto, em situação análoga à de quem corre e cai. É cômica pela mesma razão. O que há de risível num caso e noutro é certa rigidez mecânica quando seria de se esperar a maleabilidade atenta e a flexibilidade vívida de uma pessoa. Há entre os dois casos uma única diferença: o primeiro ocorreu sozinho, enquanto o segundo foi obtido artificialmente. O transeunte de há pouco apenas observava; aqui, o zombeteiro experimenta.

Contudo, nos dois casos, é uma circunstância exterior que determinou o efeito. A comicidade é, portanto, acidental; está, por assim dizer, na superficie da pessoa. Como penetrará no interior? Será necessário que, para revelar-se, a rigidez mecânica já não precise de um obstáculo colocado diante dela pelo acaso das circunstâncias ou pela malícia do homem. Será preciso que ela extraia de seu próprio fundo, por uma operação natural, a ocasião incessantemente renovada de manifestar-se exteriormente. Imaginemos, pois, um espírito sempre voltado para o que acaba de fazer, jamais para o que faz, como uma melodia atrasada em relação ao acompanhamento. Imaginemos certa falta de elasticidade inata dos sentidos e da inteligência, em virtude da qual se continua a ver o que já não existe, a ouvir o que já não ressoa, a dizer o que já não convém, enfim a adaptar-se a uma situação passada e imaginária quando seria preciso moldar-se pela realidade presente. A comicidade se situará, dessa vez, na própria pessoa: é a pessoa que lhe fornecerá tudo, matéria e forma, causa e ocasião. Será de surpreender que o distraído (pois essa é a personagem que acabamos de descrever) tenha tentado com freqüência a verve dos autores cômicos? Quando encontrou esse caráter em seu caminho, La Bruyère compreendeu, analisando-o, que tinha em seu poder uma receita para a fabricação a granel de efeitos divertidos. E abusou. Fez de Ménalque a mais longa e minuciosa das descrições, recorrendo, insistindo e teimando além da medida. A facilidade do tema o retinha. Com a distração, de fato, talvez não estejamos na fonte mesma da comicidade, mas com certeza estamos dentro de certa corrente de fatos e idéias que provém diretamente da fonte. Estamos numa das grandes vertentes naturais do riso.

Mas o efeito da distração, por sua vez, pode ser reforçado. Há uma lei geral – e acabamos de encontrar uma primeira aplicação sua – que assim formularemos: quando certo efeito cômico deriva de certa causa, o efeito nos parece tanto mais cômico quanto mais natural consideramos a causa. Rimos já da distração que nos é apresentada como simples fato. Mais risível será a distração que tivermos visto nascer e crescer diante de nossos olhos, cuja origem conheceremos e cuja história poderemos reconstituir. Suponhamos, pois, para tomar um exemplo preciso, que um indivíduo tenha feito dos romances de amor ou de cavalaria sua leitura habitual. Atraído, fascinado por seus heróis, vai aos poucos destinando apenas a eles pensamento e vontade. Ei-lo a circular entre nós como um sonâmbulo. Suas ações são distrações. Só que todas essas distrações se vinculam a uma causa conhecida e positiva. Já não são, pura e simplesmente, ausências; são explicadas pela presença do indivíduo num meio bem definido, embora imaginário. Sem dúvida uma queda é sempre uma queda, mas outra coisa é deixar-se cair num poço por estar olhando sabe-se lá para onde, outra coisa é cair por estar com o olhar fixo numa estrela. Era exatamente uma estrela que Dom Quixote contemplava. Que profunda comicidade a do romanesco e do espírito quimérico! E no entanto, se restabelecermos a idéia de distração que deve servir de intermediária, veremos essa profundíssima comicidade vincular-se à comicidade mais superficial. Sim, esses espíritos quiméricos, esses exaltados, esses loucos tão estranhamente razoáveis fazem-nos rir tocando as mesmas cordas em nós, acionando o mesmo mecanismo interior que era acionado pela vítima de uma farsa de gabinete ou pelo transeunte a escorregar na rua. São eles também corredores que caem e ingênuos que são mistificados, corredores do ideal que tropeçam nas realidades, sonhadores cândidos que a vida espreita maliciosamente. Mas são sobretudo grandes distraídos, superiores aos outros porque sua distração é sistemática, organizada em torno de uma idéia central, porque suas desditas também são bem conexas, conexas pela inexorável lógica que a realidade aplica para corrigir o sonho, e porque assim provocam em torno de si, por meio de efeitos capazes de sempre somar-se uns aos outros, um riso indefinidamente crescente. Vamos agora dar mais um passo. Aquilo que a rigidez da idéia fixa é para o espírito, não serão certos vícios para o caráter? Mau pendor da natureza ou contratura da vontade, o vício muitas vezes se assemelha a uma curvidade da alma. Sem dúvida há vícios nos quais a alma se instala profundamente com ,tudo o que traz em si de pujança fecundante, carregando-os, vivificados, num círculo móvel de transfigurações. Esses são vícios trágicos. Mas o vicio que nos tornará cômicos é, ao contrário, aquele que nos é trazido de fora como uma moldura pronta na qual nos inseriremos. Ele nos impõe sua rigidez, em vez de tomar-nos a maleabilidade. Não o complicamos: é ele, ao contrário, que nos simplifica. Aí precisamente parece estar – como tentaremos mostrar com pormenores na última parte deste estudo – a diferença essencial entre a comédia e o drama. Um drama, mesmo quando retrata paixões ou vícios que têm nome, incorpora-os tão bem na personagem que esses nomes são esquecidos, que suas características gerais se apagam, e que já não pensamos neles, mas sim na pessoa que os absorve; por isso é que o título de um drama quase não pode deixar de ser um nome próprio. Ao contrário, muitas comédias têm como nome um substantivo comum: O avarento, O jogador etc. Se eu pedir ao leitor que imagine uma peça chamada 0 ciumento, por exemplo, ao seu espírito acudirá Sganarelle, ou George Dandin, mas não Otelo; O ciumento só pode ser título de comédia. É que o vício cômico pode unir-se às pessoas tão intimamente quanto se queira, mas nunca deixará de conservar existência independente e simples; continua sendo personagem central, invisível e presente, do qual as personagens de carne e osso ficam suspensas em cena. Às vezes ele se diverte a arrojá-las com seu peso e fazêlas rolar,consigo ladeira abaixo. Mas na maioria das vezes as irá tangendo como se tange um instrumento, ou as irá manobrando como títeres. Olhando-se de perto, ver-se-á que a arte do poeta cômico consiste em fazer-nos conhecer tão bem esse vício, em introduzir-nos, a nós, espectadores, a tal ponto em sua intimidade, que acabamos por obter dele alguns fios da marionete que ele movimenta; é então nossa vez de movimentá-la; uma parte de nosso prazer vem daí. Portanto, também nesse caso, é uma espécie de automatismo que nos faz rir. E é ainda um automatismo muito próximo da simples distração. Para convencer-se, basta notar que uma personagem cômica geralmente é cômica na exata medida em que ela se ignora. O cômico é inconsciente. Como se usasse ao contrário o anel de Giges, torna-se invisível para si mesmo ao tornar-se visível para todos. Uma personagem de tragédia não mudará em nada a sua conduta ao saber que a julgamos; poderá perseverar nela, mesmo com a plena consciência do que é, mesmo com o sentimento nítido do horror que nos inspira. Mas um defeito ridículo, ao sentir-se ridículo, procura modificar-se, pelo menos exteriormente. Se Harpagon nos visse rir de sua avareza, eu não digo que se corrigiria, mas a mostraria menos, ou a mostraria de outro modo. Podemos dizer desde já: é nesse sentido., sobretudo, que o riso “castiga os costumes”. Ele nos faz tentar imediatamente parecer o que deveríamos ser, o que sem dúvida acabaremos um dia por ser de verdade.

É supérfluo por ora levar adiante esta análise. Daquele que corre e cai ao ingênuo mistificado, da mistificação à distração, da distração à exaltação, da exaltação às diversas deformações da vontade e do caráter, acabamos de acompanhar o progresso pelo qual a comicidade se instala cada vez mais profundamente na pessoa, sem cessar porém de nos lembrar, em suas manifestações mais sutis, alguma coisa do que percebíamos em suas formas mais grosseiras, um efeito de automatismo e rigidez. Podemos agora ter uma primeira visão – bem de longe, é verdade, vaga e confusa ainda – do lado risível da natureza humana e da função comum do riso.

O que a vida e a sociedade exigem de cada um de nós é uma atenção constantemente vigilante, a discernir os contornos da situação presente, é também certa elasticidade do corpo e do espírito, que nos dê condições de adaptar-nos a ela. Tensão e elasticidade, aí estão duas forças complementares entre si que a vida põe em jogo. Estão elas gravemente em falta no corpo? Temos acidentes de todo tipo, deformidades, doença. No espírito? Temos todos os graus de pobreza psicológica, todas as variedades da loucura. No caráter? Temos as inadaptações profundas à vida social, fontes de miséria, às vezes ensejo para o crime. Uma vez afastadas essas inferioridades que dizem respeito ao lado sério da existência (e tendem a eliminar-se por si mesmas naquilo a que se deu o nome de luta pela vida), a pessoa pode viver, e viver em comum com outras pessoas. Mas a sociedade exige outra coisa ainda. Não lhe basta viver; ela faz questão de viver bem. O que tem agora por temer é que cada um de nós, satisfeito em dar atenção àquilo que concerne ao essencial da vida, se entregue quanto a todo o resto ao automatismo fácil dos hábitos adquiridos. O que ela deve temer também é que os membros de que se compõe, em vez de visarem a um equilíbrio cada vez mais delicado de vontades que se insiram cada vez mais exatamente umas nas outras, se contentem com respeitar as condições fundamentais desse equilíbrio: um acordo prévio entre as pessoas não lhe basta, ela desejaria um esforço constante de adaptação recíproca. Toda rigidez do caráter, do espírito e mesmo do corpo será então suspeita para a sociedade, por ser o possível sinal de uma atividade adormecida e também de uma atividade que se isola, que tende a afastar-se do centro comum em torno do qual a sociedade gravita, de uma excentricidade enfim. E no entanto a sociedade não pode intervir nisso por meio de alguma repressão material, pois ela não está sendo materialmente afetada. Ela está em presença de algo que a preocupa, mas somente como sintoma – apenas uma ameaça, no máximo um gesto. Será, portanto, com um simples gesto que ela responderá. O riso deve ser alguma coisa desse tipo, uma espécie de gesto social. Pelo medo que inspira, o riso reprime as excentricidades, mantém constantemente vigilantes e em contato recíproco certas atividades de ordem acessória que correriam o risco de isolar-se e adormecer; flexibiliza enfim tudo o que pode restar de rigidez mecânica na superfície do corpo social. O riso, portanto, não é da alçada da estética pura, pois persegue (de modo inconsciente e até imoral em muitos casos particulares) um objetivo útil de aperfeiçoamento geral. Tem algo de estético, todavia, visto que a comicidade nasce no momento preciso em que a sociedade e a pessoa, libertas do zelo da conservação, começam a tratar-se como obras de arte. Em suma, se traçarmos um círculo em torno das ações e disposições que comprometem a vida individual ou social e que punem a si mesmas através de suas conseqüências naturais, fica fora desse terreno de emoção e de luta, numa zona neutra em que o homem serve simplesmente de espetáculo ao homem, uma certa rigidez do corpo, do espírito e do caráter, que a sociedade gostaria ainda de eliminar para obter de seus membros a maior elasticidade e a mais elevada sociabilidade possíveis. Essa rigidez é a comicidade, e o riso é seu castigo.

Abstenhamo-nos, porém, de esperar dessa fórmula simples uma explicação imediata de todos os efeitos cômicos. Ela convém por certo a casos elementares, teóricos, perfeitos, em que a comicidade é pura, sem mistura alguma. Mas desejamos, acima de tudo, transformá-la no leitmotiv que acompanhará todas as nossas explicações. Cumprirá pensar sempre nela, mas sem excessiva obstinação – mais ou menos como o bom esgrimista deve pensar nos movimentos descontínuos da lição enquanto seu corpo se entrega à continuidade do assalto. Agora, é a própria continuidade das formas cômicas que tentaremos restabelecer, retomando o fio que vai das facécias do palhaço aos jogos mais refinados da comédia, seguindo esse fio em meandros muitas vezes imprevistos, parando a intervalos para olhar ao redor, remontando, enfim, se possível, ao ponto em que o fio está suspenso e de onde se nos mostrará talvez – pois a comicidade se equilibra entre a vida e a arte – o nexo geral entre arte e vida.

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