Levítico

levitico
Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela, não somos nada.
Luis Buñuel

Convidada pela Academia de Cinema de Hollywood a ser uma das apresentadoras do Oscar 2003 e recomendada a não se pronunciar sobre a eminente Guerra do Iraque, a excelente atriz e ativista da paz Susan Sarandon iniciou: O que pode resistir ao tempo, ao vento e ao fogo? Aquilo que está em nossas memórias, e em nossos corações.

Ganhadora do Oscar de Melhor Atriz em 1995 por seu trabalho em Os últimos passos de um homem, Susan interpretou uma freira empenhada a provar a inocência de um homem condenado à cadeira elétrica. O condenado em questão foi interpretado por Sean Penn, num trabalho comovente. O mesmo ator dividiu a tela com Robert De Niro no maravilhoso filme Não somos anjos, onde interpretam dois prisioneiros em fuga que se passam por padres.

Tempo, memória, coração, guerra, freira, condenado, prisioneiros, padres … tantos pontos de vista, tantas histórias, quantas ilusões.

A questão é: do que você tem saudade? Das festas da faculdade? Dos amigos de verdade? Dos teus pais? Da liberdade? Da paz de espírito? Daquela pessoa? Pois é.

Creio que temos saudades de tudo. Dos momentos perfeitos aos insuportáveis. Somos frutos de tudo isso e, conscientemente ou não, sentimos falta. A mitologia diz que a essência de Eros, o amor, é sentir “falta de”. Talvez sejamos mesmo feitos de amor, e assim o mito seria confirmado. Andamos para lá e para cá com flechas invisíveis fincadas em nossas costas.

É interessante tentar admirar alguém que assovia durante as caminhadas, junta uma banana ao prato durante o almoço, não tira a correntinha do pescoço pois dá azar, acorda cantando sem afinação nenhuma, ou seja, alguém que tenha algo que o caracterize. Pois tenha a certeza que lembrará disso em algum momento e verá um buraco. E não há areia do mar suficiente para tapá-lo. Sem as particularidades seríamos tão nada, tão cinzas. E assim, talvez pouca coisa conseguiria resistir ao tempo, ao vento e ao fogo.

Tudo passa, a rotina nos cega e somos surpreendidos pela partida. Só então paramos um pouco em frente ao portão e esperamos o nosso avô chegar na maior estica, vestindo roupa social e chapéu, cheirando a eucalipto e cantando: Eu voltei, aqui é o meu lugar. Talvez a esperança destes reencontros é que motivem a nossa vida.

Termino este post com a música 2089 – Uma canção para o meu neto, do jovem e criativo poeta Rafael Castro, dedicada a um neto que nascerá um dia:

Em 2089
como estarás tu sem mim,
meu bem?
Eu que criei quem te fez
e ajudei te guardar.
.
Em 2089
nem vais lembrar mais que eu fui
alguém
com quem você se encantou,
tratando feito um irmão.
.
Em 2089
tu que serás o avô,
neném.
Terás em teus olhos luz,
última luz que terás.
.
Breve estarás fundo em teu mausoléu
e nos veremos enfim, no céu.
.
Termina toda uma vida
de sentir falta um do outro.
Amém!
Nós vamos nos abraçar,
vais dizer quem fostes tu
e me cantar tua canção.

Seu trabalho pode ser visto (e ouvido) em http://www.myspace.com/sabesp, onde estão disponíveis para download esta e outras canções. Rafael Castro, vale a pena conferir.

2 thoughts on “Levítico

  1. juao disse:

    Numa palavra: bacana.
    A Susan realmente é uma daquelas pessoas que fazem a diferenca. Claro que se eu achasse o c cedilha nesse novo computador a diferenca seria maior ainda. rs.
    Lembro-me dela também em Telma e Louise.
    A, sim, parabéns pelo seu blog. Profissional.

    Abs. Juão

  2. Eleuza Leal disse:

    Me encontrei no “Levítico”. A princípio estava com sono e achei que fosse algo muito sobrenatural ao relatar detalhes da atuação da atriz Susan, mas depois me encontrei como um ser normal e cheio de saudades, admiração, dúvidas e certezas.

    Enfim, adorei…um texto profundo e conscientizador.

    Abs,

    Eleuza

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