Reis

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Fome e guerra não obedecem a qualquer lei natural – são criações humanas.
Josué de Castro

Meus avós maternos tiveram 9 filhos, isso foi ótimo pois tenho 4 tios e 4 tias, além dos que entraram para a família nos casórios, e primos, sobrinhos, parentes de 2º, 3º, 4º, 5º graus. Minha mãe foi a primeira a nascer, e também a primeira a sair de casa para cursar faculdade de letras em Campinas. Como meu avô era bancário e não banqueiro, ela precisou se virar. Conseguiu bolsa na faculdade e começou a batalhar desde cedo. Isso a fortaleceu demais, mas não a livrou de momentos bem difíceis. Ela conta dos dias nos quais voltava para a pensão onde morava, abria o armário e só encontrava açúcar, e esta era a sua refeição. A fome mexe com a dignidade da pessoa, deixa a felicidade enjaulada a kilômetros de distância. Diante das crises, da excassez e de todas as dificuldades, ela seguiu em frente e venceu na vida, se formou, teve 3 lindos filhos e já é avó. E os irmãos e irmãs também conseguiram. Infelizmente nem sempre é assim.

Neto, diretor de criação da agência Bullet, escreveu sobre a crise mundial e a fome mundial:

Vou fazer um slideshow para você.
Está preparado?
É comum, você já viu essas imagens antes.
Quem sabe até já se acostumou com elas.
Começa com aquelas crianças famintas da África.
Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele.
Aquelas com moscas nos olhos.
Os slides se sucedem.
Êxodos de populações inteiras.
Gente faminta.
Gente pobre.
Gente sem futuro.
Durante décadas, vimos essas imagens.
No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto.
Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados.
São imagens de miséria que comovem.
São imagens que criam plataformas de governo.
Criam ONGs.
Criam entidades.
Criam movimentos sociais..
A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá, sensibiliza.
Ano após ano, discutiu-se o que fazer.
Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta.
Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo.
Resolver, capicce?
Extinguir.
Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta.
Não sei como calcularam este número.
Mas digamos que esteja subestimado.
Digamos que seja o dobro. Ou o triplo.
Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo.
Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse.
Não houve documentário, ONG, lobby ou pressão que resolvesse.
Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia.

Alguém se manifesta? Todos se indignam por alguns instantes, depois voltam para o Orkut e o MSN. Talvez não saibamos como agir, somos amparados pelo comodismo da distância, ou pelo conformismo: é assim, sempre foi. Revolução é uma coisa bonita e tudo, a tal ânsia de mudar um sistema injusto. Quiçá morrer por uma causa nobre! Ou então, numa nobreza mais real, viver por esta causa.

Rafael Castro, músico da cidade de Lençóis Paulista, escreveu a canção A revolução é brega:

Olha esse garoto revoltado que não sara,
desfila com a bandeira do Ernesto Guevara,
mas só peleja com o irmão.
Pobrezinha da menina achando ser mulher.
só por ter sob o braço um livro do Voltaire,
Vai dar nas bocas de um fogão!
Ah, esses rebeldes de All Star estão na moda,
desses que vivem proclamando o grande “é foda”
achando ser algum Platão.

A vanguarda só reclama, isso não se nega.
Nossa paciência inflama com tudo que ela esfrega.
Deixando a fama de que a revolução é brega.

Já foi bem mostrado e comprovado
que a gente é acostumado
a ser deixado assim de lado.
Um feriado é o bastante pra acalmar.
Deve ser pra rir, ter tantos mártires
da causa do porvir, quando a maior
batalha que estes vão assumir
É a própria espinha pra estourar.
Mas nada é igual aquela revoltinha
depois do jornal, e a ânsia de virar
o herói ambiental
pra ver o povo respirar.

No curta-metragem “A Ilha das Flores“, dirigido pelo Jorge Furtado, mostra-se de uma forma muito interessante o funcionamento da sociedade de consumo com base no tomate: alguém planta e vende para um mercado, um cliente compra e sua família se alimenta, os restos vão para o lixo e este é jogado na Ilha das Flores, um aterro no Rio Grande do Sul onde não há nenhuma flor. Lá é feita uma seleção: tomates “bons”  (inadequados para o consumo humano) alimentam os porcos,  e o resto do resto serve de alimento para famílias muito pobres.

Em tempos de mulher melancia, mulher melão, mulher mamão e sabe-se lá o que mais, talvez a mulher tomate seja uma boa garota propaganda para o Fome Zero.

One thought on “Reis

  1. Anônimo disse:

    Depois de um longo tempo de ausência, resolvi salvar novamente o Factível entre os meus favoritos.
    Realmente, mulher tomate cairia bem nos tempos de fome.Coincidentemente o “Ilha das Flores” foi citado essa semana em uma de minhas aulas e fiquei bem curiosa para ver…Concordo com você que ver figuras comoventes e depois voltar para as nossas alienações não é o caminho para salvar o mundo de seus males,mas você tem idéia do que possa ser feito?
    Beijos,
    Lilian

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