Samuel

samuel
Ao invés de amor, religião, dinheiro, fama ou justiça, dê-me a verdade.
Henry David Thoreau

Inteligente, culto, bem-educado, recém-formado na faculdade, com 22 anos e US$ 24.000,00 no banco e notas suficientes para ingressar no doutorado em Harvard, o sucesso profissional de Christopher McCandless era dado como certo. Contudo, havia nele um vazio imenso. Alguns dias após a formatura doou tudo o que tinha para a caridade e saiu numa viagem rumo ao Alaska, onde planejou viver em contato com a natureza e longe da sociedade para“sem dinheiro, sem telefone, sem piscina, sem bichos de estimação, sem carro, sem família nem cigarros, lutar na batalha para matar o falso ser interior”. No caminho conheceu pessoas fantásticas, ensinou e aprendeu muito, serviu de exemplo para uma classe descontente com a equação felicidade = consumo. Esta história real foi publicada em 1996 no livro Into the Wild, do escrito Jon Krakauer, que em 2007 foi transformado no maravilhoso filme homônimo (em português: Na natureza selvagem ) dirigido por Sean Penn. O papel de Chris foi interpretado pelo jovem ator Emile Hirsch, enquanto a bela e adequada trilha sonora foi composta pelo líder da banda Pearl Jam, senhor Eddie Vedder.

No poema Eu voltei para Maio de 1937 (I got back to 1937 May), a escritora americana Sharon Olds diz:

Vejo meus pais parados no baile de formatura da faculdade.

Vejo meu pai vagando sob o arco de granito ocre …

As telhas vermelhas luzindo feito placas de sangue atrás de sua cabeça.

Vejo minha mãe abraçando alguns livros leves, parada ao pé do pilar de tijolinhos …

Com os portões de ferro batido ainda abertos atrás dela, com suas lanças negras no ar de maio.

Eles vão se formar.

Eles vão se casar. São crianças, são tolos.

Só sabem que são inocentes, que nunca machucariam ninguém.

Quero ir até eles e dizer:

– “Parem, não façam isso.
Ela é a mulher errada, ele é o homem errado.
Vocês farão coisas que nunca imaginariam fazer.
Farão coisas ruins com seus filhos.
Vão sofrer de modos que nunca ouviram falar.
Vão querer morrer.”

Quero ir até eles sob o sol de fim de maio e dizer isto.

Mas eu não vou. Quero viver.

Pego os dois como bonecos de papel de homem e mulher e os esfrego pelo quadril feito lascas de pederneira para tirar faíscas deles.

Eu digo:

– Façam o que têm de fazer, e eu lhes direi tudo.

Por muitos foi julgado como louco, irresponsável e suicida, e por outros foi visto como corajoso, sensível e herói. Algumas pessoas sentem muito claramente a necessidade de ficar sozinhas, de estar consigo mesmas por algum tempo. Talvez isso fique muito evidente para quem vive numa cidade com milhões de habitantes, caminhando ou dirigindo por lugares onde você está sempre rodeado de gente e de barulho, mas no fundo se sente só.

Noutro dia estava guiando pela cidade e quando parei numa esquina e vi um carro que deve custar mais de R$ 500.000,00. Dentro, um cara de uns 30 anos, bem apessoado e chorando de um jeito que parecia se sentir completamente sem mãos, sem ter o que fazer. Nâo me atrevi a perguntar se precisa de algo, ou se estava tudo bem, mas posso ter quase certeza que a vida dele mudou naquele dia. Talvez estivesse a caminho de um funeral, ou estivesse com o coração partido pela amada que o deixou,  quiçá a crise tenha quebrado a sua empresa, ou é possível que estivesse apenas triste e confuso.

Meu tio Léo passou por uma fase de muitas dúvidas aos 19 anos e foi conversar com uma pessoa que era considerada sábia demais. Foi questionado:

– Por que vc está aqui, menino?

– Estou muito confuso.

– Muito muito?

– Muito muito!

– Muito muito muito?

– Muito muito muito!

– Então você está no caminho certo.

Com base nisso, o sábio explanou sobre o que significa a confusão, de que forma ela nos mostra os caminhos e nos faz crescer.

O músico gaúcho Nico Nicolaiewsky disse em A vida é confusão:

Não sei se foi mentira o que eu falei
Não sei se foi maldade o que eu pensei
Não sei se foi por ti
Não sei se foi por mim
Não sei
Não sei

As vezes a verdade dói demais
As vezes a mentira faz feliz
As vezes sou cruel
As vezes sou bobão
As vezes sim
As vezes não

A vida é confusão
A vida vai seguir
Os homens vão sonhar
Os deuses vão sorrir
A vida é confusão
O mundo vai girar
Os deuses vão dançar

Esta é uma verdade: a Terra não pára de girar. Creio muito que seguir sempre com fé e fazer o que é preciso acaba com a maioria das confusões e dúvidas que possam surgir, e com certeza surgem sempre. Mas o que seríamos de nós sem todas as histórias, as dificuldades, as dúvidas, as confusões? Somos moldados por tudo isso, lapidados por situações que parecem tão negativas quando olhamos pela primeira vez, e colaboram com a nossa felicidade de uma maneira tão efetiva a longo prazo.

Afinal de contas, como disse sabiamente o poeta americano Robert Lee Frost:

Posso resumir em três palavras o que aprendi sobre a vida: a vida continua.

3 thoughts on “Samuel

  1. Rubens disse:

    Olá, Lilian.
    Olha que bonito isso: a essência de uma coisa é constituída pelas propriedades imutáveis desta mesma coisa. Acabei de ler.
    Será que conseguiremos manter a nossa intacta?
    Beijos

  2. Lilian disse:

    É preciso coragem para ir além da superfície, ir em busca de algo tão próximo e ao mesmo tempo tão distante, a nossa verdadeira essência.
    Ótimo post!
    Bjos

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