Tuareg

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É preciso que um povo desapareça para que saibamos que ele existiu.

Os tuaregues compõe um grupo étnico que habita a região do Sahara, ao noroeste da África. A palavra Tuareg significa “abandonados pelos deuses“. Talvez a Volkswagen não tenha levado isso em consideração ao batizar um veículo com esse nome.
Um dos membros dessa civilização foi entrevistado pelo jornalista espanhol Víctor M. Amela.
A sabedoria e sensibilidade desse nômade, que ingressou no curso de administração numa faculdade francesa, é algo fantástico.

Jornalista: Fale-me sobre você.

Tuareg: Nasci no Deserto do Saara, sem documentos – não sei minha idade.
Nasci em um acampamento dos nômades tuaregues.
Fui pastor de camelos, cabras, cordeiros e vacas de meu pai.
Hoje estudo administração na Universidade de Montpellier, na França.
Estou solteiro.
Defendo aos pastores tuaregs.
Sou muçulmano, sem fanatismo.

Jornalista: Que turbante tão formoso!

Tuareg: É uma fina tela de algodão que permite tapar o rosto no deserto, e continuar a ver e respirar através dele.

Jornalista: É de um azul belíssimo…

Tuareg: Nós, os tuaregs, somos chamados de homens azuis por isso: O tecido solta a tinta e nossa pele adquire tons azulados.

Jornalista: Como conseguem esse tom de azul anil?

Tuareg: Com uma planta chamada índigo, mesclada com outros pigmentos naturais. Para os tuaregs o azul é a cor do mundo.

Jornalista: Por quê?

Tuareg: É a cor dominante: é a cor do céu, do teto de nossa casa.

Jornalista: Quem são os tuaregs?

Tuareg: Tuareg significa “abandonados”, porque somos um velho povo nômade do deserto, solitários e orgulhosos: “Senhores do Deserto”, é como nos chamam. Nossa etnia é a amasigh (bereber), e o nosso alfabeto, o tifinagh.

Jornalista: Quantos são?

Tuareg: Uns três milhões, e a maioria permanece nômade.
Mas a população diminue. “É preciso que um povo desapareça, para que saibamos que ele existiu!”, apregoava um sábio.
Eu luto para preservar esse povo.

Jornalista:A que se dedicam?

Tuareg: Pastoreamos rebanhos de camelos, cabras, cordeiros, vacas e asnos num reino de imensidão e de silêncio.

Jornalista: O deserto é realmente tão silencioso?

Tuareg: Quando se está sozinho naquele silêncio, ouve-se o batimento do próprio coração. Não há lugar melhor para se estar sozinho.

Jornalista: Quais recordações de sua infância você conserva com maior nitidez?

Tuareg: Lembro-me de despertar com a luz do sol e logo olhar as cabras de meu pai.
Elas nos dão leite e carne, nós a levamos onde há água e pasto.
Assim fizeram meu bizavô, meu avô e meu pai e eu.
Não havia outra coisa no mundo além disso.
E eu era muito feliz com isso.

Jornalista: Não parece muito estimulante.

Tuareg: Mas é muito!

Aos sete anos já te deixam afastar-se do acampamento para que aprendas coisas importantes: farejar o ar, escutar, apurar a vista, orientar-se pelo sol e as estrelas.
E a deixar-se levar pelo camelo, se você se perder. Ele sempre te levará onde há água.

Jornalista: Saber isso é valioso, sem dúvida.

Tuareg: Ali tudo é simples e profundo.
Existem muito poucas coisas.
E cada uma tem um enorme valor.

Jornalista: Então esse mundo e aquele são muito diferentes, não?

Tuareg: Sim. Ali cada pequena coisa te proporciona felicidade.
Cada toque é valorizado.
Sentimos uma enorme alegria pelo simples fato de nos tocarmos e estarmos juntos.
Ali ninguém sonha com chegar a ser, porque cada um já o é.

Jornalista: O que mais o chocou em sua primeira viagem à Europa?

Tuareg: Ver as pessoas correndo pelo aeroporto.
No deserto só se corre quando vem uma tempestade de areia. Me assustei.

Jornalista: Elas apenas iam buscar suas malas.

Tuareg: Sim, era isso.
Também vi cartazes de mulheres nuas.
Me perguntei: porque essa falta de respeito para com a mulher?
Depois, no Íbis Hotel, vi a primeira torneira da minha vida, vi a água correndo e senti vontade de chorar.
Que abundância! Que desperdício! Não?
Todos os dias da minha vida consistiam em procurar água.
Quando vejo as fontes ornamentais aquí e acolá, continuo sentindo por dentro uma dor tão intensa.

Jornalista: Tanto assim?

Tuareg: Sim. No começo dos anos 90 houve uma grande seca.
Morreram os animais e nós adoecemos.
Eu tinha uns 12 anos e minha mãe morreu. Ela era muito importante para mim.
Me contava histórias e ensinou-me a contá-las muito bem.
Ela me ensinou a ser eu mesmo.

Jornalista: O que sucedeu com sua família?

Tuareg: Convenci meu pai que me deixasse ir à escola.
Quase todo dia caminhava 15km.
Até que um dia o professor me arranjou um lugar para dormir e uma senhora me dava o que comer, quando eu passava em frente à sua casa.
Entendi que essa ajuda vinha de minha mãe, de longe.

Jornalista: De onde surgiu esse desejo de estudar?

Tuareg: Uns dois anos antes, havia passado pelo nosso acampamento o Rally Paris-Dakar, e uma jornalista deixou cair um livro de sua mochila.
Eu o apanhei e lhe entreguei.
Ela me deu o mesmo de presente.
Era um exemplar do Pequeno Príncipe e eu me prometi que um dia conseguiria lê-lo.

Jornalista: E conseguiu.

Tuareg: Sim. Foi assim que consegui uma bolsa de estudos na França.

Jornalista: Um tuareg na universidade!

Tuareg: Ah, o que mais sinto falta aqui é o leite de camela.
E o calor da fogueira, e de andar com os pés descalços na areia quente.
Lá nós olhamos as estrelas todas as noites e cada estrela é diferente das outras como cada cabra é diferente.
Aqui, à noite, você olha para TV.

Jornalista: Tem razão. Além disso, o que você acha pior aqui?

Tuareg: Vocês têm tudo, mas não acham suficiente.
Vocês se queixam.
Na França passam a vida reclamando!
Aprisionam-se pelo resto da vida à uma dívida bancária, num desejo de possuir tudo rapidamente.
No deserto não há congestionamentos, e você sabe por quê?
Porque lá ninguém quer ultrapassar ninguém.

Jornalista: Conte-me um momento de extrema felicidade no seu deserto distante.

Tuareg: Todo dia, duas horas antes do pôr do sol, a temperatura abaixa, mas ainda não chegou o frio.

Os homens e os animais lentamente voltam para o acampamento e seus perfis são recortados em um céu cor de rosa, azul, vermelho, amarelo, verde…

Jornalista: Fascinante…

Tuareg: É um momento mágico.
Entramos todos na cabana e colocamos o chá para ferver.
Sentamo-nos em silêncio e ouvimos a ebulição.
A calma invade todos nós, e o nosso coração bate ao ritmo do barulho da fervura.

Jornalista: Que paz!

Tuareg: Aqui vocês têm relógio, lá nós temos tempo…

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